domingo, 1 de maio de 2011

O dia em que morri

Ontem morri! Mas fingi muito bem... respirava regularmente, ao ritmo, ao compasso, a cada terceira batida...
Afinal morrer não é assim tão mau!

Eis o momento de bloquear todo e qualquer sentimento, sinal de vida e existência.
Agora já não existo mais.
Deixei de Ser, de Haver, de Existir!

É assim a morte... um poço fundo, sem fim, onde nada existe.

Já não doi o corpo, já não doi o espirito abandonado
Já nada doi...

É apenas a morte, a ausência, o não ser.
Prefiro permanecer morta.
E escolho fazê-lo.
Sei que flutuo na morte por minha própria vontade: que bastaria olhar pra cima e procurar esperança.
Sei que teria força: tenho-a sempre!
Sei que resistiria: porque eu sempre resisto!
Sei que aguentaria: eu aguento sempre!

Mas não quero resistir, não quero mais aguentar, não quero mais ser resiliente! Acabou.
Saber desistir é uma qualidade que eu não tenho. Por isso, prefiro permanecer morta.

Não quero ser mais abalroada por esta ternura que transborda do teu sorriso.
Para ti é igual... Mas para mim, não...

Fica com a minha lividez, sucumbe ao peso da morte!
A minha morte! Um peso, que por mais que treines nunca vais conseguir levantar...
Vive com a culpa: porque foste tu que me mataste!
Quem pode confiar em alguém?

Por isso vivo com a minha morte, a minha escuridão, o meu fim. Porque não me abandonam, não me desprezam, não fingem não me amar...
Porque me acompanham, porque escutam a minha dor e tornam-na sua, até a dor ser novamente morte...
Não me amam mais que tu, mas são constantes, fiáveis, perenes...

Não sorrio, não existo, não sou...
Mas não sofro!
Porque não sou e não penso!
Porque na ausência da morte está a tua ausência...
Na escuridão apaga-se o teu ser prateado...
No fim, nada mais há a dizer!
Acaba-se a felicidade e a dor. Como se desligasse o interruptor com um gesto simples e rápido! Apaga-se a luz: a tua existência radiosa, o teu ser confuso mas tão simples, as tuas mãos calejadas de toque delicado, os teus olhos profundos e brilhantes da minha presença. Nada mais se vê...
Nada mais se sente.

Porque não me chega o teu sorriso? Porque não é suficiente a presença?
Porque me matas, quando, na verdade, me amas?
Como estou morta, deixarás de me ver...
Não quero me que olhes, não quero que mais ninguém me olhe como eu sou de verdade... e é por isso, que vale mais não existir...

Este é o dia em que morri!
Só porque escolhi morrer para ti...

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